#26 - Creator Economy
- Debate no Café

- há 2 dias
- 7 min de leitura
No mundo dos criadores de conteúdo digital, é comum ouvirmos que pensar em linha editorial é buscar transformar sua especialidade em conteúdo. Seja um mestre cervejeiro falando sobre cerveja ou um piloto sobre voos, o objetivo é reunir pessoas com a mesma paixão, tornando-se relevante e gerando um círculo virtuoso de engajamento e proximidade com uma comunidade engajada, ou "tribo". A internet permitiu uma ultra-segmentação que é extremamente benéfica, pois não queremos falar de tudo para todo mundo. É com essa premissa que iniciamos mais um episódio do Debate no Café, apresentado por Márcio Oliveira e Thiago Mistro Pierozzi.
O convidado deste debate é Leo Soltz, um profissional com trajetória sólida em administração, marketing e políticas públicas. Com duas décadas de experiência em comunicação e a última dedicada à vertical de tecnologia, Leo atua como investidor anjo e conselheiro, focando no desenvolvimento de startups e mídia tech. A conversa flui em torno de como o cenário de criação e consumo de conteúdo mudou drasticamente em um mundo que transita entre o conceito de VUCA e o BANI, onde a velocidade das transformações exige novas formas de percepção.
Márcio abre o diálogo questionando como as mídias tradicionais ainda funcionam em um ambiente onde todos podem ser criadores de conteúdo. Leo descreve esse momento como uma jornada tecnológica na qual o cidadão comum ganha voz e presença, mas também assume uma responsabilidade imensa por aquilo que propaga. Para ele, a liberdade permitida pelas redes sociais não deve ser confundida com libertinagem, especialmente em tempos de fake news. A possibilidade de o cidadão exercer o poder da palavra retira o monopólio das antigas estruturas de poder, mas exige estudo e investimento de tempo para que a construção dessa nova sociedade não ocorra de forma desordenada. Leo utiliza a analogia do "céu de brigadeiro": mesmo em voos aparentemente tranquilos, surgem nuvens, tempestades e desvios necessários causados por quem muda a rota deliberadamente ou por erro, reforçando que não existe estrada fácil, mas sim estradas a serem construídas por nós mesmos e pela regulação social.
Thiago pontua que a inovação no meio digital transformou o conteúdo em um produto central para qualquer estratégia de marca ou influência pessoal. Ele observa que a tecnologia permite que a gestão de uma equipe de criação seja muito mais focada em dados, mas que essa transformação digital só faz sentido se houver um olhar estratégico por trás. Para Thiago, o uso de inteligência artificial ou qualquer outra tecnologia de ponta deve servir para ampliar a capacidade de diálogo com o público, sem perder a essência do que está sendo comunicado.
Leo concorda e expande a discussão para as novas profissões que surgem nesse ecossistema. Ele menciona que hoje temos um "grande pai" chamado Google, que abre possibilidades infinitas em um mundo genuinamente tecnológico onde vivemos por meio de nossos dispositivos móveis. Muitas profissões deixaram de existir ou foram ressignificadas pela indústria 4.0. Profissionais que antes estavam em agências de comunicação agora migram para carreiras como YouTubers, "TikTokers" ou "Instagrammers", impulsionados pela dependência massiva de aplicativos no dia a dia. Ele cita o exemplo da Netflix, que, como uma plataforma de vídeos, encerrou a era das locadoras Blockbuster, forçando toda a indústria da comunicação a se reinventar através de novas estruturas de conteúdo.

A Creator Economy está intimamente ligada a essas mudanças, pois novas personas surgem para resolver "dores" específicas do público. Contudo, Leo alerta para o perigo da "preguiça" de ler e da falta de filtro na informação. Ele compartilha uma experiência pessoal ao ver livros e apostilas sendo descartados em uma escola pública, o que lhe trouxe um sentimento ambíguo: de um lado, a tecnologia se fazendo real e necessária; de outro, o risco de perdermos a essência da qualidade da informação. Ele questiona o que aconteceria se o repositório digital que hoje nos sustenta, como o Google, deixasse de existir por algum motivo. Para Leo, a sociedade deve continuar avançando tecnologicamente, mas é fundamental questionar modelos como o metaverso e as formas de propagação de narrativas, garantindo que as pessoas mantenham o poder de discordar e ponderar com base em informações sólidas, algo que as gerações mais novas, como a Z, por vezes carecem por falta de bagagem crítica.
Márcio levanta a questão da curadoria em um mundo com excesso de produção. Ele questiona se estamos sendo consumidos por "lixo" digital e até que ponto podemos confiar no conteúdo produzido por influenciadores sem que estes sejam meros porta-vozes de interesses comerciais. Leo responde dividindo a questão em duas partes: a primeira sobre o poder das tribos e verticais. Antigamente, especialistas genéricos falavam em mesas redondas na televisão; hoje, o conteúdo é verticalizado. Se alguém quer aprender sobre programação neurolinguística (PNL), buscará Thiago por sua especialidade. Essa especialização é positiva, mas exige que o indivíduo também se integre a um conjunto macro de conhecimentos para não ficar isolado.
Sobre a confiança, Leo afirma que ela é complexa e deve estar ligada ao DNA do conhecimento de cada um. Os algoritmos tendem a nos entregar mais do mesmo, criando bolhas de interesse que podem ser desastrosas se não houver um senso crítico. A estratégia sugerida por Leo é que 70% do conhecimento venha de ouvir, ler e estudar fontes diversas, e não apenas do que é entregue passivamente por um aplicativo. Depositar a autoridade na mão de um algoritmo é abdicar da própria soberania e autenticidade.
Márcio reflete sobre como essas bolhas alimentam divisões sociais e políticas, citando que o Brasil possui um número altíssimo de influenciadores digitais — superando até profissões tradicionais como dentistas e engenheiros em certas métricas de alcance. Ele menciona que cerca de 40% dos consumidores já tiveram suas decisões de compra influenciadas por esses criadores. Diante disso, Leo reforça que a solução é a preparação da sociedade para analisar os dois lados da moeda. Ele sugere que, para quebrar a estrutura algorítmica, as pessoas devem buscar ativamente conteúdos fora de suas zonas de conforto, como ler portais de diferentes vertentes políticas ou utilizar navegadores de forma anônima para evitar o rastreamento constante de perfis de consumo.

Thiago acrescenta que a estratégia digital moderna exige um entendimento profundo do comportamento humano. Ele nota que o uso de IA e ferramentas de inteligência artificial permite uma segmentação precisa, como o Google Ads 360, onde campanhas podem ser direcionadas por bairro, gosto e tema. Essa transformação digital permite que empresas falem diretamente com seu público sem a necessidade de "tiros de canhão" como os 40 pontos de audiência do Jornal Nacional de antigamente. Contudo, Thiago ressalta que essa inovação tecnológica traz riscos se não for acompanhada de uma visão ética e de uma equipe preparada para gerir as crises que surgem após o "carro já estar rodando". Ele cita como a estratégia digital de Barack Obama, embora pioneira e vitoriosa, também abriu portas para discussões sobre fake news que enfrentamos até hoje.
A conversa volta-se para a importância da experiência e da experimentação. Leo argumenta que a nova geração tem mais oportunidades de experimentar caminhos distintos, mas muitas vezes fica presa em bolhas digitais. Ele defende que a amplitude de conhecimento traz possibilidades de decisão melhores, seja na busca por um emprego ou na construção de um negócio. A Creator Economy dá oportunidade para que nichos sejam identificados e vozes sejam ouvidas, mas quanto mais reduzido for o repertório do criador ou do consumidor, menores serão as oportunidades.
Um ponto crítico debatido é a viralização de conteúdos de baixa qualidade. Márcio expressa preocupação com o sucesso de conteúdos "ruins" e o perigo de fraudes como as deepfakes. Leo admite que o problema reside na superficialidade da sociedade. Como gestor de uma mídia tech como a One Big Media, ele lida com o desafio de equilibrar métricas de receita e tempo de visualização com a oferta de conteúdos que tragam qualificação e contrapartida social. Ele defende que é necessário usar a criatividade para "vender" informações importantes, às vezes utilizando formatos mais leves para atrair o público, mas mantendo a responsabilidade sobre o impacto dessa mídia. Leo enfatiza que as mídias tech hoje possuem mais poder que os antigos grupos de comunicação, sendo capazes de influenciar eleições e o destino econômico de países.
A transformação necessária, segundo Leo, passa obrigatoriamente pela educação e pela cultura. Ele cita países como a Coreia do Sul, Japão e Estônia como exemplos de nações que fizeram revoluções educacionais com resultados visíveis em décadas. Para ele, o Brasil precisa abandonar processos "patriarcais" e "coloniais" de poder para abraçar um futuro tecnológico baseado no conhecimento, onde a tecnologia é apenas o meio, e não o fim. Os criadores de conteúdo, como "ponta de lança" dessa comunicação, têm a responsabilidade de trazer pautas relevantes para suas tribos, fugindo do conteúdo meramente fugaz.
Thiago complementa a visão corporativa, afirmando que a gestão de pessoas e o produto final de uma empresa devem estar alinhados a propósitos claros para atrair talentos qualificados. Ele observa que há uma escassez de profissionais que realmente entendam de comportamento humano e redes sociais. Como exemplo de falha estratégica, menciona o caso do Bradesco com influenciadoras veganas, que gerou desconexão com o público-alvo e prejuízos milionários. Thiago acredita que esse tipo de erro é fruto da falta de conhecimento sobre o impacto das redes e da ausência de uma estratégia digital madura, que priorize a análise cuidadosa em vez de apenas seguir tendências momentâneas.
Leo reforça que as empresas não podem ser meras coadjuvantes; devem ser atores conscientes, estudando os dois lados da moeda e conhecendo profundamente seus clientes. Ele critica a visão distorcida de executivos que tentam impor seus gostos pessoais em produtos voltados para o mercado. A discussão encerra-se com uma reflexão sobre o material didático nas escolas brasileiras, que Leo considera desconectado do entretenimento e da realidade digital. Ele defende a inclusão de disciplinas como psicologia, sociologia e filosofia, além de uma abordagem mais lúdica e tecnológica para o ensino de história e ciências, utilizando criadores de conteúdo que já realizam esse trabalho de forma brilhante no YouTube.
Para Leo, o professor deve atuar como um tutor que guia o aluno através desses materiais modernos, ajudando a decifrar o conhecimento em vez de apenas exigir a memorização de dados como a tabela periódica, que muitas vezes não gera conexão prática com a vida do estudante. Ele cita o trabalho de Mauricio de Sousa (Link Amazon) como exemplo de entretenimento que educa e faz a criança viajar por universos lúdicos.
Ao finalizar, Leo Soltz expressa seu desejo por uma sociedade com mais senso de pertencimento e nacionalismo soberano, independentemente de vieses partidários. Ele acredita que o impacto social através de bons conteúdos e modelos de negócio escaláveis é o caminho para o Brasil. Thiago Mistro Pierozzi encerra reforçando que o canal busca ser um ambiente de ideias e transformação digital, agradecendo a Leo e Márcio Oliveira pela conversa profunda sobre o futuro da nossa sociedade tecnológica.
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