#30 - Longevidade e a Economia Prateada
- Debate no Café

- há 16 horas
- 5 min de leitura
A expectativa de vida do brasileiro, hoje fixada em 77 anos, deve saltar para 81 anos até 2060, conforme dados do IBGE. Esse cenário, aliado ao fato de que pessoas com mais de 50 anos já representam 42% do poder de consumo no Brasil, coloca a "Economia Prateada" no centro das discussões estratégicas globais. Para explorar esse ecossistema, o Debate no Café recebeu Gabi Michelin, especialista em gerontologia social e fundadora das empresas Raízes e Histórias Contadas.
Neste encontro, os hosts Thiago Mistro Pierozzi e Márcio Oliveira mergulharam nas complexidades do envelhecimento populacional e como as empresas podem se preparar para essa transformação. Thiago iniciou destacando que, até 2040, metade da força de trabalho no Brasil terá mais de 50 anos, o que exige uma nova mentalidade de gestão e equipe. Márcio, por sua vez, ressaltou que o tema da longevidade começa a ser pessoalmente relevante para muitos líderes que já fazem parte dessas estatísticas crescentes.

O Envelhecimento Acelerado do Brasil
Diferente do que ocorreu na Europa ou nos Estados Unidos, onde o envelhecimento populacional foi um processo gradual que permitiu o ajuste de políticas públicas, no Brasil a mudança é repentina. Gabi Michelin explicou que estamos vivendo a inversão da pirâmide populacional de forma muito radical. Se nas gerações de nossos bisavós era comum famílias com mais de dez filhos, hoje o número de nascimentos despencou, enquanto os avanços da medicina e do saneamento básico prolongaram a vida.
Essa nova realidade traz desafios estruturais. De acordo com a convidada, a grande questão não é apenas viver mais, mas como viveremos esses anos extras. "Quais as principais mudanças que a gente precisa não só nas empresas no mercado em adaptações de marcas e produtos... mas também na saúde pública", questionou Gabi, apontando que nem todos chegarão à longevidade de forma ativa se não houver um suporte financeiro e de saúde física e mental ao longo de toda a trajetória de vida.
O Plano de Vida e a Reinvenção aos 70
Um dos pontos mais sensíveis debatidos foi o descompasso entre o plano de vida tradicional e a realidade atual. Márcio observou que muitos da geração de seus pais planejaram a aposentadoria para os 60 ou 65 anos, esperando viver apenas mais cinco ou dez anos. No entanto, ao chegarem aos 76, percebem que podem ter mais duas décadas pela frente, muitas vezes sem recursos financeiros ou ocupação estruturada.
Gabi Michelin enfatizou que essa geração é a primeira a viver o "boom" da longevidade e está tendo que se reinventar em pleno voo. Thiago pontuou que, sob a ótica de inovação e estratégia, as empresas precisam considerar como usar o conhecimento desses profissionais longevos. A tecnologia e o digital podem ser aliados nesse processo, mas a transformação digital deve incluir a experiência de quem já passou por diversos ciclos de mercado.
O Valor da Diversidade Geracional nas Equipes
Ao discutir a inclusão de pessoas 60+ no mercado de trabalho, Thiago destacou que uma equipe diversa traz soluções melhores e uma inteligência artificial ou qualquer outra tecnologia não substitui o repertório humano acumulado. Gabi, que trabalha em suas empresas exclusivamente com colaboradores 60+, compartilhou que o ritmo de trabalho desses profissionais é diferente, porém mais profundo e assertivo.
"A mistura dos ritmos é perfeita... a gente está um trator para fazer agora vai, aí vem uma longeva do time e diz: 'gente, espera um pouquinho... vamos deixar a poeira baixar'. Daqui a uma semana a gente vai estar muito mais capacitado para resolver".
Para Márcio Oliveira, a inclusão real nas empresas ainda é incipiente. Ele criticou as contratações feitas apenas para "sair no jornal" ou como bandeira de marketing, sem oferecer salários equivalentes ou funções estratégicas. Thiago reforçou que a gestão de talentos deve olhar para o longevo como um ativo estratégico para a organização, e não apenas como uma cota de diversidade. A transformação cultural dentro das companhias é essencial para que o produto final reflita as necessidades desse público.
O Mercado de Consumo e a Falha de Diálogo das Marcas
Um dos momentos mais ilustrativos do debate foi quando Gabi Michelin contou a história de sua avó de 87 anos. Sendo uma mulher independente que mora sozinha, ela utilizava a dobradiça de uma porta para conseguir abrir garrafas de refrigerante, pois não tinha mais força nas mãos para girar a tampa. Este exemplo escancara a miopia da indústria em relação à ergonomia e ao design de produto para o público idoso.
Thiago Pierozzi comentou que a estratégia de produto no cenário digital muitas vezes ignora a usabilidade para quem não nasceu imerso na tecnologia. Ele defendeu que as empresas precisam de uma transformação no modo como desenvolvem interfaces, utilizando IA para facilitar a vida de quem possui limitações motoras ou visuais, em vez de criar barreiras.
Márcio lembrou de uma conversa anterior com Sidney Oliveira (autor do livro Gerações: Encontros, Desencontros e Novas Perspectivas) sobre os conflitos geracionais no ambiente corporativo e como isso afeta a comunicação das marcas. Gabi complementou dizendo que muitas empresas têm "curiosidade gigante", mas não sabem por onde começar, muitas vezes por falta de uma "cadeira" específica no marketing ou de verba orçamentária para estudar esse perfil de consumidor.

Superando o Idadismo e o Preconceito Corporativo
A discussão caminhou para a necessidade de mudar o olhar sobre o "velho". Gabi explicou que o termo, em nossa língua, carrega uma conotação negativa de desgaste, enquanto em outras culturas ele é associado exclusivamente a aspectos positivos, como sabedoria e bagagem de experiência. Márcio confessou que ainda existe um desconforto pessoal com os rótulos, mas que é necessário aceitar o envelhecimento para planejar o futuro.
Thiago Mistro Pierozzi destacou que a inovação estratégica deve combater o preconceito interno. Muitas vezes, marcas jovens têm medo de se conectar com o público longevo e "envelhecer" sua imagem, ignorando que o marketing digital permite conversas segmentadas e personalizadas. Segundo Gabi, as marcas que chegarem primeiro e conquistarem a fidelidade desse consumidor — que é mais crítico, porém mais fiel quando bem atendido — terão uma vantagem competitiva enorme.
Para concluir, Márcio Oliveira deixou uma provocação aos diretores de marketing e CEOs: "você precisa aprender a ouvir e a falar com os longevos, porque eles continuarão sendo consumidores durante muito tempo". Thiago Mistro Pierozzi finalizou reafirmando que o trabalho de educação e compartilhamento de conhecimento é o que move o canal, ajudando a construir um legado melhor para as futuras gerações de longevos.
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