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#35 - O RD Summit e a retomada dos eventos pós COVID-19

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    Debate no Café
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

O cenário dos eventos corporativos atravessou, nos últimos anos, a sua mais profunda transformação digital. O que antes era pautado pela presença física compulsória e por interações analógicas, deu lugar a um ecossistema complexo onde a tecnologia e a necessidade de conexão humana disputam o protagonismo. Para entender como líderes e empresas devem navegar nessa nova realidade, o Debate no Café recebeu Denis Bevacqua, Diretor de Eventos da RD Station e a mente por trás do RD Summit, um dos maiores eventos de marketing e vendas da América Latina.


Nesta conversa conduzida por Márcio Oliveira e Thiago Mistro Pierozzi, Bevacqua explora como a pandemia não apenas paralisou o setor, mas forçou uma reinvenção que agora colhe frutos em modelos híbridos e estratégias de engajamento de alta performance.



A Dualidade Digital: Entre o Alcance e a Imersão

A transição forçada para o digital durante o confinamento serviu como um laboratório acelerado para o mercado. Como destaca Thiago Mistro Pierozzi, ferramentas que antes eram acessórios tornaram-se pilares para a gestão de eventos, permitindo novas formas de networking, acesso a conteúdo e inovação na jornada do participante. No entanto, a migração para o online revelou tanto potências quanto limitações severas.


Denis Bevacqua compartilha que, no auge da pandemia, a RD Station experimentou diferentes modelos. Em 2020, o evento online pago atraiu 10 mil participantes engajados. Em 2021, ao optar pelo modelo gratuito focado em volume, alcançaram a marca impressionante de 80 mil inscritos. Essa escala, embora poderosa para o brand awareness, trouxe à tona o desafio da retenção. No ambiente digital, a métrica é implacável: é possível saber exatamente em que minuto o participante abandonou uma palestra, algo muito mais complexo de mensurar no presencial.


Para o líder corporativo, a lição é clara: o canal online não deve ser uma réplica do físico. No retorno ao presencial, a estratégia da RD foi tratar o online como um produto complementar — uma espécie de "backstage" com entrevistas exclusivas e especialistas, inspirado em grandes produções como o Oscar ou a Fashion Week. O objetivo é evitar o "overlap" e garantir que quem investiu tempo e recursos para estar fisicamente no evento tenha uma experiência de imersão insubstituível.


O Evento como Ativo Estratégico de Gestão e Marca

Um erro comum de muitas empresas, aponta Bevacqua, é organizar eventos apenas porque a concorrência o faz ou por um impulso de vendas imediatas. "As pessoas querem vender mais, mas eu sempre provoco: você tem certeza que o seu objetivo é vendas?". Um evento de grande porte é, em sua essência, a materialização da cultura e da estratégia de uma organização.


Márcio Oliveira corrobora essa visão, enfatizando que as marcas precisam se conectar aos "três órgãos vitais" do ser humano: a mente, o bolso e o coração. Enquanto o bolso e a mente são mensuráveis através de KPIs de vendas e absorção de conteúdo, o coração — a emoção e a conexão — é o mais difícil de quantificar, mas muitas vezes o mais valioso para a retenção de longo prazo.


Nesse sentido, Thiago aponta que a inovação em um produto de evento deve servir a um propósito maior, seja ele a atração de talentos, o lançamento de uma nova tecnologia ou o fortalecimento do ecossistema de parceiros. No caso do RD Summit, o evento tornou-se um braço fundamental de RH. Muitos profissionais decidem trabalhar na RD Station após vivenciarem a essência da marca durante os três dias de imersão. Para líderes, isso ensina que o ROI de um evento deve ser lido sob uma ótica multi-dimensional, onde o fortalecimento do employer branding pode ser tão vital quanto o pipeline de vendas.


"O evento é basicamente a materialização do que é a tua empresa e a cultura da tua empresa." — Denis Bevacqua.

Logística Exponencial: Gerindo uma "Cidade" de Três Dias

Gerir um evento de 11 mil participantes presenciais e 25 mil online exige uma disciplina de gestão que Bevacqua compara à administração de uma pequena cidade. A complexidade é traduzida em um checklist que ultrapassa 1.500 linhas e um ciclo de planejamento que dura entre 14 e 16 meses.


A montagem física consome 60 dias, mas a estratégia de curadoria e logística começa muito antes. Bevacqua detalha que tudo, desde a etiqueta do crachá até a distribuição sustentável de água (com a eliminação de copos descartáveis para 11 mil pessoas), deve ser milimetricamente planejado. Thiago reforça que essa gestão de equipe e de recursos é o que define o sucesso de uma transformação operacional desse porte, onde não há espaço para "erratas". Diferente de uma campanha digital que pode ser ajustada em tempo real, um evento ao vivo é uma chance única de execução.


Márcio Oliveira destaca o peso dessa responsabilidade, notando que 73% dos municípios brasileiros têm entre 10 e 20 mil habitantes, o que coloca o Diretor de Eventos no papel de um "prefeito" temporário responsável por segurança, alimentação, transporte e bem-estar de uma população flutuante e exigente. O custo para o participante é alto — entre inscrições, passagens e hospedagem — e a entrega precisa justificar o investimento do bem mais escasso na atualidade: o tempo.


Tendências e a Fronteira do Humano: IA e Metaverso

Durante o RD Summit, temas como inteligência artificial e o uso de IA para conectar participantes com interesses em comum surgiram como ferramentas poderosas para replicar o networking orgânico no ambiente digital. No entanto, a grande tese que emergiu não foi tecnológica, mas antropológica: a humanização do marketing.


Thiago destaca que a transformação digital deve ser um meio para otimizar processos, e não para substituir a interação humana essencial. Bevacqua observa uma "preguiça social" pós-pandemia, mas também uma carência profunda por conexões reais. O "Conversational Marketing", utilizando ferramentas de conversa em tempo real como o WhatsApp, aparece como uma tendência para encurtar a distância entre marcas e consumidores, mas sempre sob uma ótica de diálogo, não de automatização fria.


Quanto ao Metaverso, o consenso no debate foi de cautela. Embora seja uma pauta forte, Bevacqua e Thiago concordam que a viabilidade para as massas ainda depende de avanços em equipamentos e infraestrutura que popularizem a experiência, de forma similar ao que foi a evolução da internet no final dos anos 90. Para as empresas, a lição é investir em tecnologia que potencialize a humanidade, e não que crie novas barreiras artificiais.



O Perfil do Líder de Eventos: Resiliência e Soft Skills

O profissional que lidera esses grandes projetos precisa de um conjunto específico de habilidades. Bevacqua revela que a organização de eventos é classificada como uma das profissões mais estressantes do mundo, figurando ao lado de policiais e controladores de voo. A capacidade de manter o equilíbrio emocional sob pressão constante é o diferencial.


Thiago enfatiza que a gestão de uma equipe de alta performance em eventos depende de um relacionamento interpessoal fortíssimo, pois o líder depende de múltiplos "staffs" — da segurança à alimentação — que precisam de autonomia para resolver problemas na ponta e escalar apenas o essencial. O "radinho" do organizador é um fluxo contínuo de intercorrências, e a inteligência emocional para processar feedbacks negativos e agir rapidamente é o que garante a continuidade da experiência para o público.


Síntese Estratégica para a Liderança

O diálogo entre Denis Bevacqua, Márcio Oliveira e Thiago Mistro Pierozzi deixa claro que os eventos corporativos não são mais apenas "encontros", mas plataformas de inovação e estratégia de negócios. Para líderes que buscam relevância, o caminho envolve:


  1. Clareza de Propósito: Definir se o objetivo é branding, relacionamento ou atração de talentos antes de definir o formato.

  2. Hibridismo Inteligente: Usar o digital para escala e alcance, mas preservar o presencial para imersão e exclusividade.

  3. Humanização Radical: Utilizar a inteligência artificial e a tecnologia para remover atritos, permitindo que a conexão humana floresça.

  4. Planejamento Exponencial: Entender que a excelência logística é a base sobre a qual a experiência de marca é construída.


Como bem pontua Thiago Mistro Pierozzi ao final do encontro, cada grande evento é uma aula de gestão e adaptação, reafirmando que, mesmo em um mundo cada vez mais digital, nada substitui o valor de uma comunidade unida em torno de um propósito comum.


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